Instituições apostam em novos modelos de financiamento estudantil

Publicado por Sinepe/PR em

Taxa de juros zero, sem aprovação cadastral, para todos os alunos, e não apenas para aqueles com alto rendimento acadêmico. Muitos poderiam achar que este é o slogan de uma agente financeira, porém, são apenas algumas das condições que, há mais de uma década, a Fundação Hermínio Ometto utiliza para oferecer crédito estudantil aos estudantes que não podem pagar as mensalidades.

A aposta na relação direta com os discentes surgiu antes mesmo do boom do financiamento público e se mostrou sustentável ao longo dos anos, tornando-se uma alternativa bastante concreta ante o refreamento e atual declínio do Fies. Com a independência dos sustentos federais, a FHO, antes chamada de Uniararas, foi capaz de amenizar o impacto da crise que se abateu sobre o setor – e que exige medidas inovadoras para o preenchimento das vagas ociosas.

O desemprego, um dos principais vilões desse cenário, já atinge cerca de 13 milhões de brasileiros, com mais intensidade nas classes menos favorecidas, público atendido prioritariamente pela rede privada. O financiamento estatal, que até então era a principal mola propulsora do setor, perdeu protagonismo e reduziu drasticamente sua oferta.

Apesar desse cenário, o mais recente Censo da Educação Superior, relativo ao período de 2017, mostrou que a população acadêmica voltou a crescer no país, embora timidamente. É o que motiva algumas instituições privadas a investir em novos modelos de captação e financiamento para agregar essa grande massa ainda disposta a comprometer parte de seus salários com educação.

Algumas optaram pelo fornecimento de crédito estudantil, outras pela distribuição de bolsas, e uma das mais singulares passou a exigir a contrapartida de parte do salário dos egressos, como foi apresentado no workshop internacional promovido pela Universidade Corporativa Semesp sobre programas sustentáveis de bolsas de estudo e de crédito estudantil.

O risco é nosso
De volta ao caso da Fundação Hermínio Ometto, a instituição fundada em Araras, no interior de São Paulo, identificou lá pelos idos de 2006 a necessidade de financiar parte de seus alunos, principalmente os das classes C e D. Após uma fracassada negociação com o setor bancário, a FHO decidiu desenvolver o próprio modelo de crédito estudantil batizado com o nome de PagFácil.

Vários aspectos motivaram a instituição a seguir por esse caminho, sendo o primeiro deles a possibilidade de reduzir a evasão. Constatou-se que os alunos com algum tipo de crédito tinham maior comprometimento e evadiam menos. Na verdade, duas vezes e meia a menos que os demais. O segundo ponto foi que, com o aluno pagando uma parcela menor, a mensalidade caberia no seu bolso e com isso tenderia a não se tornar inadimplente.

Porém, a instituição percebeu que a sustentabilidade do programa dependia do aumento da captação de alunos. De nada adiantaria financiar somente os estudantes já matriculados. Além de não aumentar as receitas, o sistema diminuiria o fluxo de caixa.

Na primeira versão do PagFácil, lançada em 2008, o programa concedia aos alunos 50% a mais do tempo da graduação para quitar as dívidas. No caso de uma mensalidade de R$ 600,00 de um curso de quatro anos, o estudante pagaria apenas R$ 400,00 por mês até se formar e depois seguiria com as mesmas parcelas até completar os dois anos seguintes. Isso sem juros, apenas com os reajustes anuais comuns a todos os alunos da instituição. A única exigência era que o candidato apresentasse um avalista, ou seja, um responsável em último caso por possíveis dívidas. Posteriormente, as regras do PagFácil se tornaram ainda mais flexíveis. As mensalidades foram divididas ao meio e o período de quitação foi estendido para o dobro do tempo do curso.

Para ser autofinanciável, conforme hipótese sustentada pela FHO, o PagFácil deveria captar no mínimo 20% a mais de alunos. Adicionando a esse cálculo que 40% dos estudantes não contemplados optariam por aderir ao crédito, ainda assim o modelo seria sustentável. Ademais, o saldo devedor dos alunos já formados completaria a outra metade do valor das mensalidades dos futuros ingressantes. Essa projeção foi confirmada logo de início. Aproximadamente 5 mil alunos optaram por contratar a linha de crédito. Após uma década, em 2019, e com um salto nas matrículas, o programa dobrou de tamanho e agora atende 10 mil estudantes, o que compreende cerca de dois terços do corpo discente da instituição.

O programa está consolidado em termos de operação e caminha para uma estabilização financeira, como indica o diretor Administrativo e Financeiro da FHO, Francisco Eliseo Fernandes Sanches. “Quando tivermos estabilidade no número de matrículas, teremos o valor entrando do mesmo porte do que está saindo. Como estamos recebendo o pagamento dos ingressantes de quatro, cinco anos atrás, quando havia menos adesão, estamos recebendo menos do que estamos jogando para a frente. Mas o programa está numa fase bem adiantada de consolidação. Daqui para adiante já começamos a ter um fluxo de retorno mais compatível para o equilíbrio da instituição”, comenta o diretor.

Bolsas para todos os aprovados
No caso da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP), da Fundação Getulio Vargas (FGV), o modelo de captação de alunos se ampara em um fundo de crédito estudantil criado em 1965 e que já financiou mais de 25 mil estudantes ao longo dos anos. Para pleitear uma bolsa reembolsável entre 20% e 100%, o candidato precisa indicar um fiador e apresentar, anualmente, documentação financeira que comprove a necessidade do recebimento do benefício. Essa prática foi necessária, explica Arthur Ridolfo Neto, coordenador do Programa de Bolsas de Estudos da EAESP, pois já houve casos de estudantes que solicitaram o financiamento, sem taxa juros, enquanto investiam o valor das matrículas e recebiam dividendos bancários.

A disponibilidade das bolsas da EAESP tem, entre outros, o objetivo de tornar o público da escola cada vez mais diversificado e atrair jovens talentos, independentemente da situação econômica. Este é um ponto caro ao programa. A instituição só financia alunos com bom desempenho. Os atuais 500 bolsistas precisam alcançar média semestral de pelo menos seis para renovar o benefício. Já ao final do curso, os futuros egressos terão um ano de carência para começar a quitar as mensalidades, com valor corrigido apenas pelo Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M).

Mas para esse modelo de financiamento funcionar foi necessário desenvolver um sistema eficiente de cobrança e, principalmente, ampliar o patrimônio do fundo. Para isso, além do recebimento das mensalidades devidas, a escola apostou, desde o início, em um programa de doações. “Nosso maior desafio é aumentar a base de doadores”, comenta Arthur Neto. Para isso, a EAESP busca permanentemente apoio de egressos bem-sucedidos, como também de pessoas físicas em geral e de instituições.

Círculo de solidariedade
A experiência colombiana pode indicar um possível caminho para instituições brasileiras seguirem na ampliação de seus modelos de financiamento. O programa Quiero Estudiar lançado pela Universidad de Los Andes, de Bogotá, em 2006 e reformulado em 2013, já matriculou cerca de mil alunos e formou 112 profissionais nesta segunda fase. Direcionado a jovens talentos sem recursos para bancar o ensino superior privado, o programa funciona através de um fundo de bolsas – parecido com o da FGV – que financia 95% das mensalidades. Os outros 5% são cobrados como contrapartida dos alunos selecionados, que, além disso, comprometem-se a honrar um Termo de Reciprocidade, como explica Carolina Salguero, diretora de Inovação do Quiero Estudiar. Diferentemente dos demais modelos, que cobram o saldo devedor após o aluno se formar, aqui o candidato concorda em devolver para a instituição 20% do seu salário pelo dobro do tempo em que ficou na universidade, isso em um contrato firmado apenas no âmbito da confiança, sem a necessidade de envolver procedimentos jurídicos.

O modelo de financiamento da Universidad de Los Andes tem algumas particularidades. Para chegar ao percentual de retribuição estipulado, a instituição desenvolveu uma pesquisa salarial e de empregabilidade de seus egressos. O valor fixado foi igual a todas as carreiras. Assim, egressos com profissões mais rentáveis passaram a financiar as atividades com menores remunerações, mecanismo este que acompanha a filosofia do Quiero Estudiar, que prega os conceitos de solidariedade, reciprocidade e pertencimento. Mas ainda com esta média, a conta não fechava. Um curso de graduação de quatro anos na instituição colombiana custa aproximadamente 43 mil dólares. Já o retorno proveniente dos alunos não passa, na melhor das hipóteses, dos 70% deste valor. Aqui entra a última variável que torna essa equação, em tese, sustentável: as doações.

A instituição desenvolveu um Departamento de Filantropia. A diretora do setor, Carolina Angel, trabalha basicamente com três grupos de doadores – os que doam até 3 mil dólares por ano, os que doam entre 3 mil e 150 mil e, no topo, os que doam acima desse valor – e utiliza biografias de egressos bem-sucedidos como forma de ‘vender’ o projeto. Atualmente, Carolina já conta com uma carteira de 4 mil doadores, 70% deles egressos da própria universidade, e tem por objetivo ampliar esse número para 6 mil. De maneira geral, o programa Quiero Estudiar percorre, obrigatoriamente, três estágios para ser autossustentável. O primeiro deles é uma seleção criteriosa dos candidatos. Na sequência, uma formação de qualidade e com foco na empregabilidade. E por fim, a captação permanente de recursos.

A base do modelo de financiamento da Universidad de Los Andes atravessou o continente e, mesmo que ainda em fase bastante embrionária, já ganhou uma versão brasileira. A Unifeob, localizada em São João da Boa Vista (SP), lançou neste ano o Quero Estudar, programa de concessão de crédito livremente inspirado na versão colombiana. Tudo começou após uma visita do reitor João Otávio Bastos Junqueira à Universidad de Los Andes. Ele se identificou com o projeto e decidiu replicar o programa para os alunos brasileiros. De volta ao país, após apresentar os conceitos para sua equipe de trabalho, rapidamente foram selecionados 53 candidatos, todos indicados por escolas públicas da cidade, e em 2019 iniciaram as aulas da turma inicial.

Ainda com o projeto em fase de desenvolvimento, os alunos do Quero Estudar brasileiro receberam financiamento de 100% das matrículas, sem a necessidade do reembolso, ao contrário do modelo colombiano. “Não obrigamos os alunos a pagar os 20% do salário depois de formados. Paga quem quiser. Quero mesmo é que nosso estudante seja bem-sucedido e que depois ele venha a financiar outro aluno”, diz Junqueira.

Fonte: José Eduardo Coutelle – Revista Ensino Superior
Data: 24/06/2019

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