Nem todo conteúdo escolar perdido na pandemia precisa ser recuperado, diz professor de Harvard

Publicado por Sinepe/PR em

Para Jal Mehta, preocupa o fato de que soluções únicas estejam sendo adotadas para realidades diferentes

Professor da Faculdade de Educação na Universidade Harvard, ele defende que há lacunas que, se existirem, devem ser tratadas como prioridade, como a alfabetização. Mas isso não vale para todos os alunos. “Eu me preocupo com um mundo em que a gente exija matemática e leitura em dobro todo dia”, diz em entrevista à Folha.

Pesquisador de estratégias de aprendizagem em profundidade, ele afirma ser adepto de uma “estratégia Marie Kondo” de enxugamento do currículo escolar, fazendo uma analogia à escritora que prega o desapego radical de objetos.

Mehta defende que as escolas ofereçam aos alunos atividades que façam sentido e que lhes permitam aprender enquanto fazem algo. “Há espaço para aulas expositivas, mas um espaço muito modesto.”

Autor do livro “In Search of Deep Learning” (em busca da aprendizagem em profundidade), ele estará nesta segunda-feira (28) em seminário organizado pelo Instituto Singularidades em parceria com o escritório brasileiro do David Rockefeller Center for Latin American Studies da Universidade Harvard, com apoio da Folha.

O evento debaterá, ao longo de quatro dias, como engajar estudantes e promover aprendizagem em profundidade.

Em artigo publicado em dezembro de 2020, o senhor afirmou que a pandemia expôs a necessidade de tornar as escolas mais humanas. O que entende por escolas mais humanas?
Tudo começa com construir relações entre professores e estudantes. Especialmente nos anos finais do ensino fundamental ou no ensino médio, alunos aprendem seis ou sete matérias, e professores podem ser responsáveis por 150 a 180 pessoas ao longo de sua carga horária.

E aí uma aula emenda na outra, tem todo um conteúdo a ser coberto e, se alguém fica doente ou algo se atrasa, você tem que se virar para resolver.

Então o que eu queria dizer era que toda a organização das escolas trabalha contra as relações humanas, que tanto alunos como professores gostariam de construir.

E por que isso não acontece? É falta de tempo?
O total de estudantes pelo qual um professor é responsável é um fator, tempo é outro. Em uma aula de 45 minutos, as pessoas entram, recebem as primeiras orientações, levam um tempo para se instalar e logo a aula acabou.

Algumas escolas com as quais trabalhamos na pandemia adotaram outra organização, com menos blocos de aulas. Por exemplo, em vez de seis disciplinas em um semestre, três por trimestre com o dobro do tempo.

Pareceu ser uma boa mudança porque professores relataram que estavam preparando menos aulas, os encontros com os alunos não eram mais tão apressados e isso permitiu um ritmo razoável para desenvolver relações.

Muitos gestores têm quebrado a cabeça para recuperar perdas de aprendizagem das crianças após a pandemia. É algo realmente prioritário?
Depende. Me preocupo que as pessoas estejam adotando soluções únicas para realidades diferentes. Se você é um aluno do primeiro ou segundo ano que durante a pandemia não aprendeu a ler, esse é um problema muito sério e é preciso muito apoio e atenção para que você aprenda.

Agora, se você é um estudante do sétimo ano e trabalhou muito, mas não aprendeu algo de história e estudos sociais que teria tido em um ano normal, em vez de tentar enfiar todo esse conteúdo no tempo que você tem agora, provavelmente seria melhor só ir atrás do que você mais precisa e trazer um pouco para o começo do curso.

Quando a gente apressa as coisas e tenta enfiar dois anos de escola em um, alunos ficam infelizes, professores têm burnout e não há espaço para exploração intelectual. Há sinais claros de que a pandemia trouxe uma carga muito pesada para a saúde mental dos estudantes e isso deve ser parte dessa equação.

Eu me preocupo com um mundo em que a gente exija matemática e linguagem em dobro na escola todo dia, quando as crianças e adolescentes muitas vezes precisam de outras coisas.

Eu me preocupo com um mundo em que a gente exija matemática e linguagem em dobro na escola todo dia, quando as crianças e adolescentes muitas vezes precisam de outras coisas. Mas é claro que há casos em que é preciso recuperar algumas coisas.

O senhor faz um paralelo com a escritora Marie Kondo, que defende abrir mão de tudo o que não traz alegria, para defender um enxugamento do currículo. Devemos aprender o teorema de Pitágoras nas escolas? E mitocôndrias?
Eu realmente acho que deveríamos aplicar Marie Kondo ao currículo. Currículos são formados por comitês de adultos que têm diferentes visões sobre o que os alunos devem saber. Para resolver as discordâncias, ninguém perde. Tudo o que todo mundo quer entra no currículo. Ninguém pensa realmente na perspectiva dos alunos e professores, nem em um todo coerente.

As pessoas esquecem grande parte do que aprendem na escola. Se déssemos uma prova sobre mitocôndrias e outros conteúdos, muitos adultos que souberam passar em provas sobre esses temas, eu inclusive, não iriam tão bem. E muitos adultos parecem estar vivendo muito bem na ausência desse conhecimento.

O senhor menciona em seu livro que encontrou mais aprendizagem em profundidade em disciplinas eletivas e extracurriculares. O que elas têm que poderia ser aproveitado pelas disciplinas tradicionais?
Podemos pegar o teatro estudantil como exemplo. Tem propósito, envolve uma performance autêntica que as pessoas vão ver, ou seja, tem uma razão para você fazer e alguém esperando para ver o que você criou. Tem escolha, tem senso de comunidade, tem liderança. Muitas dessas qualidades poderiam ser usadas em aulas tradicionais.

Poderíamos dar aos alunos mais escolha. Em vez ter ter inglês 1, inglês 2, inglês 3 etc., oferecer um curso de literatura e emoções, ou fantasia e realidade. Com isso, você está dizendo às pessoas por que elas podem querer aprender aquilo.

É preciso mudar tudo ou dá para desenvolver criatividade e engajamento com práticas tradicionais como aulas expositivas? Ou aulas expositivas de história, por exemplo, deveriam ser banidas?
Acho que deveríamos mudar tudo, mas passo a passo. Tudo remonta à questão do propósito. Se você estivesse muito interessada na Revolução Francesa e um historiador especializado em história francesa fosse à sua cidade, você preferira ouvi-lo falar do que discutir o tema em grupo com as pessoas ao lado.

As pessoas aprendem das mais diferentes maneiras, em aulas expositivas, pelo YouTube, com suas mães, e em geral isso envolve fazer algo.

No geral, se os estudantes tiverem mais autonomia sobre sua aprendizagem, se criarem com mais frequência coisas que fazem sentido para eles, o aprendizado vai se fixar mais no longo prazo e vai continuar depois que a aula terminar. Mas devemos banir aulas expositivas? Não. Elas têm um lugar, mas um lugar bastante modesto e tem que ser parte de um percurso maior.

A um podcast você disse que tirou a Coreia do Sul como exemplo de suas apresentações depois de conhecer melhor o sistema educacional do país. Por quê?
Fiquei muito interessado na questão do desempenho versus aprendizagem e em como a iniciativa de pesquisar e explorar conhecimento pode ser prejudicada quando estudantes se preocupam demais em se dar bem em exames nacionais ou ganhar notas máximas.

À medida que aprendi mais sobre o sistema coreano em particular, a ênfase em “cram schools” [escolas especializadas em treinar os alunos para provas] como forma de fazer as crianças entrarem no ensino superior por uma janela muito estreita, não me pareceu um bom modelo.

Não significa que eles não saibam as coisas; eles sabem. É possível produzir bons resultados em exames exigindo muito e preparando as pessoas para esses testes, mas não me parece ser o jeito mais saudável de viver.

Por: Folha de S.Paulo